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Como a alteridade se constrói no cotidiano do Colégio Paulo Freire

Por Sandra Ruas
Diretora

Alteridade é um valor construído que se traduz na capacidade de se colocar no lugar do outro.

O antropólogo brasileiro Gilberto Velho elucida: “A noção de outro ressalta que a diferença constitui a vida social, à medida que esta efetiva-se através das dinâmicas socais. Assim sendo a diferença é, simultaneamente, a base da vida social e fonte permanente de tensão e conflito”.* Simplificando, Gilberto Velho mostra de que forma a interação entre a parte íntima e interior do indivíduo e o outro forma o cerne da vida social.https://brasilescola.uol.com.br/sociologia/conceito-alteridade.htm

A escola é um lugar privilegiado de permanente exercício da alteridade, porque, além de ser o primeiro, é o espaço público em que permanecemos por muito tempo. É na escola que as crianças e os jovens se deparam com a inquietação de que o papel de protagonistas, normalmente desenvolvido no ambiente familiar, deve abrir espaço para que outros protagonistas também se manifestem. Ou seja, é no contexto escolar que aprendemos a esperar, a escutar, a dialogar e assistir ao outro.

O exercício de ora ser aquele que se apresenta e agradece e ora ser aquele que assiste e aplaude é de difícil aprendizado e se dá nas relações estabelecidas em ambientes sociais, desde muito cedo. As rodas de conversas, as assembleias, as leituras compartilhadas, as atividades desportivas, a socialização de saberes, as mostras de arte e os eventos são momentos especiais de construção deste valor, porque tão mais importante que apresentar o talento ou o conhecimento e disponibilizá-lo para o público é a humildade e a capacidade de se colocar como um aprendiz ou expectador e apreciar de forma respeitosa.

Além disso, destacamos, no Colégio Paulo Freire, a construção do valor colaborativo nos momentos quando cada um é incentivado a entender as dificuldades do outro e ajudá-lo para o seu bom desenvolvimento, construindo, assim, um sentimento de grupo e de apoio que, ao mesmo tempo, fortalece e inclui.

Sendo assim, como uma comunidade educadora, pais, mães, educadoras e educadores têm, nesta escola, a responsabilidade de orientar, não só no tratamento didático e nas atitudes do cotidiano escolar, mas também no encontro, na escuta, na comunhão e no diálogo com todos que nos rodeiam.

Pressupostos Teóricos:

[…]Lev Semenovitch Vygotsky é um dos autores da psicologia que se dedicaram ao estudo do complexo processo de formação e do desenvolvimento humano. A atividade humana no meio social é o principal impulso que movimenta todo o processo de formação da psique humana. Nesse sentido, o teórico aproximava-se e concordava em vários aspectos com a teoria marxista acerca do mundo social e das implicações da ação humana em seu meio. Vygotsky afirmava isso baseado na ideia de que é pela interação social que o sujeito constrói-se como indivíduo diante do confronto com o mundo externo. […]
https://brasilescola.uol.com.br/sociologia/conceito-alteridade.htm

“Toda obra filosófico-antropológica e pedagógica de Paulo Freire é perpassada pela presença da alteridade como condição para a constituição do próprio eu. […]

Para Freire o outro, a alteridade, tem acima de tudo, uma conotação positiva, pois o eu se constitui a partir do outro. […] É a alteridade ética do outro que desperta o eu de sua alienação e egoísmo.  […]

A educação é, em sua essência, um processo ético antes de ser consciência crítica, engajamento político e ação transformadora. Ou a educação é ética e respeitosa com a alteridade do outro em sua singularidade, ou não é educação. É este respeito à alteridade do outro a exigência ética de todo o pensamento de Freire. Toda a eticidade da existência humana se dá no reconhecimento da alteridade, da sua dignidade de pessoa e na luta por justiça social. Sem este respeito e reconhecimento do outro não podemos entrar no diálogo libertador. Seguindo o legado ético-pedagógico de Freire, podemos concluir dizendo que o resgate da dignidade do outro, da sua alteridade é condição primeira para a edificação de um projeto de mundo/sociedade ‘em que seja menos difícil amar’ “. (STRECK, Danilo R.; REDIN,Euclides e ZITKOSKI, Jaime José (orgs). Dicionário Paulo Freire . 2. ed rev. amp . Belo Horizonte : Autência Editora, 2010. p. 34.)